Jorge Cuervo

Jorge Corvo, consultor e formador na Organização de Equipes, Liderança e Gestão de Mudança, acaba de publicar o o Que fazer com seus medos (Livros de Cabeçalho, 2015), um manual que pretende ensinar ao leitor como gerir o medo, uma emoção antiga e necessária para a sobrevivência, o que geralmente queremos nos livrar, mas que, segundo este especialista em técnicas de coaching, devemos aproveitar para que “trabalhe a nosso favor, e não contra”. O autor analisa a forma como afeta o medo a nossa eficácia e auto-estima, e oferece uma estratégia de gestão de pessoal, que inclui exercícios práticos, para conseguir aceitá-lo e transformá-lo em um aliado.

O medo é uma emoção inerente à espécie humana, e que é indispensável para a sobrevivência, mas quando não responde a um perigo real você serve para alguma coisa?

Na verdade, serve para que tenhamos mais do que deveríamos. E isso pode ser algo estéril…, ou podemos tomá-lo como um estímulo, uma chamada de a vida a aprender mais sobre como funcionamos das pessoas, e assim poder melhorar a nossa gestão pessoal.

De fato, se aceitares as coisas com a mentalidade certa, não há nada que seja inútil. Não são as coisas que vivemos, mas a atitude com que vivemos o que torna uma experiência em algo útil ou inútil.

Tem de ficar claro que nos referimos aos medos normal, e não aos medos patológicos, as fobias, estas são outra história e requerem tratamento específico.

Quais são os medos universais, que compartilhamos com todos os seres humanos, independentemente de nossa raça ou crença?

No livro dedico um capítulo amplo para comentar os tipos de medo mais comuns: medo de dano físico, do fracasso, da rejeição, de perder o poder e, acima de tudo, o mais perverso de todos, o medo ao medo. E também centro do debate sobre se existe ou não o medo de mudança.

Como afecta o medo da auto-estima?

Entre com a primeira pergunta, costumamos culpar o medo de fazer com que nos sintamos mal. Mas é um mecanismo natural que por si só pretende nos ajudar a sobreviver melhor. O verdadeiro problema é que não sabemos o que fazer frente a ele!

Costumamos culpar o medo de fazer com que nos sintamos mal, mas é um mecanismo natural que por si só pretende nos ajudar a sobreviver melhor

Ao não saber o que fazer, sentimo-nos impotentes, nos culpabilizamos, nos vemos mais pequenos… Isso faz com que perdemos a confiança em nós mesmos e, ao final, pode acabar afetando a auto-estima. No fim, fazemos o contrário do que deveríamos. Mas, se sabemos como manuseá-lo, ocorre o efeito contrário: nós nos sentimos capazes, nós crescemos, e isso, finalmente, aumenta a nossa auto-estima!

portanto, o medo pode afetar a nossa auto-estima, para o bem e para o mal. Na realidade, tudo depende de que saibamos o que fazer quando aparece. Ao rejeitá-lo, não gastamos energia para conhecê-lo e transformá-lo em um aliado, mas isso pode ser feito. Se o aceitamos como parte de nossa vida, podemos transformá-lo em um verdadeiro companheiro no nosso crescimento como pessoas. Hoje temos técnicas para isso, e em o livro inclui alguns exercícios.

a Falar de medos, é quase inevitável referir-se à crise económica, que tanto dano causou, você acha que a crise mudou os ‘medos’ ou a forma de lidar com eles?

Sinceramente, não acho que tenha mudado os medos e, infelizmente, nem a forma de lidar com elas. Espero que o meu livro contribua para começar a trilhar este caminho. Mas sim, eu tenho a sensação de que aumentou a vulnerabilidade para o medo, porque aumentou a insegurança, que é a ante-sala do medo. E isso se deve a que as seguranças externas, que nos aferrábamos para nos sentirmos seguros, estão a cair como um castelo de cartas, uma após a outra… Cada vez é mais difícil de controlar o ambiente, cada vez depende mais de coisas que você não pode controlar.

Isto é algo fundamental: chegou a hora de procurar a segurança interna! A verdadeira segurança depende de como você pode gerenciar seus recursos para enfrentar situações em constante mudança que você não pode escolher. A boa notícia é que isto se pode aprender, e então o medo se torna o mestre perfeito, porque nos indica, sem dúvida, onde nos dói o sapato. Este é o sentido principal do livro.

o Que é mais saudável arriscar-se e passar medo ou ficar entediado na ‘zona de conforto’?

A ‘zona de conforto’ tem um nome que induz a erro. A zona de conforto é muito pouco confortável! Há muitas pessoas ao nosso redor que está até as narinas de si mesma; pessoas chatas, amargadas por uma vida sem encanto. Nessa área não há aprendizagem, apenas rotina. Se não sais nunca dela, você se torna o carcereiro e prisioneiro de uma vez: embora de entrada pareça confortável, em seguida, torna-se chato, depois é a sua prisão e, por último, às vezes, até mesmo em seu caixão, porque há pessoas que são como mortos em vida. E chega um momento em que se recusam a ser assim e se importam com a gente que está viva; então, é frequente que se dediquem a se tornar amarga para os que os cercam para que sejam como eles.

Eu não tenho nenhuma dúvida, um pouco de medo bem conduzido é saudável, você está vivo!

Hoje, as mudanças, de um chute, podem lançar-se fora da ‘zona de conforto’, e então também se pillará com sua musculatura de aprendizagem atrofiada por falta de uso

Uma reflexão final: quantas pessoas podem realmente considerar estar sempre na ‘zona de conforto’? Cada vez menos! Hoje as mudanças, de um chute, podem lançar-se fora da ‘zona de conforto’, e então também se pillará com sua musculatura de aprendizagem atrofiada por falta de uso… Esse problema está acontecendo com muitas pessoas.

neste país nos matam frases como ‘mais vale um mau conhecido…’ ou ‘que eu fique como estou’.

Aprendendo a administrar os medos

Embora possa parecer frívolo, tenho uma curiosidade, porque se ninguém gostaria de ter medo de muitas pessoas gostam de livros, shows ou filmes de terror?

Há uma razão fisiológica. Quando o medo aparece ocorre uma descarga de hormônios como a adrenalina. Esta, por exemplo, faz-nos sentir vivos, é uma excitação agradável. E, além disso, vem seguida, para recuperar, pela secreção de substâncias cerebrais chamadas endorfinas, que produzem sensação de relaxamento e prazer. Isso move muito dinheiro.

será que É possível aprender a explorar os medos, sem a ajuda externa de um psicólogo ou de um workshop, por exemplo?

Sim, você é, como você pode ir ao ginásio e fazer esporte por sua conta. Mas se você tem um treinador que te leve, os resultados são muito melhores e mais rápidos. Por isso, se você não pode ou não quer a ajuda de um profissional, ao menos, procura por informações que o guie. Seria a minha ilusão de que o livro ajudasse a conseguir a quantas mais pessoas melhor, e mais nos tempos que correm.

E, no caso de crianças, como ensina o lado positivo do medo?

Pois, da mesma forma em que agora lhes ensinamos a rejeitar o medo, a lutar contra ele e tentar controlá-lo: basicamente com o exemplo. Como aprendemos todos a entupir nossas fraquezas, a sentir vergonha por ter medo? Sobre todos os homens. Em contrapartida, aceitar as fraquezas constitui a base da força. E aceitar o medo, é também a base de partida para gerenciá-lo.

Aceitar as fraquezas constitui a base da força. E aceitar o medo, é também a base de partida para manuseá-lo

O exercício físico e a meditação podem ajudar a gerir as emoções e, de passagem, os medos?

é claro. A boa gestão exige aprender a ouvir e adquirir consciência de como estamos, isto é, auto-consciência. Qualquer atividade que desenvolva essa capacidade ajuda-o a gerir as emoções.

o livro propõe uma série de diretrizes para enfrentar e aproveitar os nossos medos, as experimentou-se consigo mesmo e se deram resultado?

Na verdade, eu sempre me senti muito ele, e eu continuo me sentindo assim. Trata-Se, pois, de ser ele, mas não covarde. Ou seja, é viver o medo como o princípio, o que põe em marcha o processo, não como o fim.

As diretrizes que proponho em sua origem provêm de práticas e conhecimentos consolidados e contrastantes, que, então, tenho vindo a desenvolver por conta própria através de minha própria experiência pessoal e da prática profissional com os clientes.

Mas é muito importante entender algo sobre o que no livro eu insisto muito: o que não funciona é a mentalidade da ‘dieta milagrosa’ ou as ‘pílulas mágicas’: ‘eu tomo alguma coisa e me arranja’. Aqui seria ‘eu faço um exercício e o medo desaparece’. Isso não funciona assim, não quero contribuir para o auto-engano de ninguém.

O que funciona mesmo é trabalhado como se fosse um plano de treino desportivo; os grandes mudanças virão da pequena prática diária, constante, e sempre haverá falhas. É a vida mesma! Assim, um dia você olhará para trás e dirá com satisfação ‘você tem que ver como ela estava e como eu cresci, como seria minha vida se eu tivesse ficado igual!’.

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